sexta-feira, 23 janeiro, 2026
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Pesquisa aponta que brasileiros têm pouco conhecimento do Holocausto

Hannah Charlier, 83 anos de idade, é uma sobrevivente do Holocausto. Nascida em 1944, na Bélgica, ela é filha de judeus que participavam da resistência contra o nazismo alemão. Sua mãe estava grávida quando foi capturada pelos alemães e levada para a prisão, onde Hannah nasceu.

Hannah era apenas um bebê quando seus pais foram então encaminhados para o fuzilamento. Mas ela sobreviveu porque sua mãe, antes de ser fuzilada, a colocou em um pequeno embrulho, que amarrou nas costas. Quando sua mãe foi fuzilada, acabou caindo sobre Hannah. “E, em cima dela, caíram outras pessoas”, contou Hannah.

Um oficial alemão que acompanhou o fuzilamento notou que a mãe de Hannah, antes de ser fuzilada, tentava proteger alguma coisa. “Ele ficou curioso para saber porque ela dava tanta importância para aquilo que ela tentou proteger. Então, ele mandou todo mundo para casa e, quando todos saíram, ele voltou para lá e puxou esse ‘embrulho’ que estava embaixo da minha mãe. Foi então que ele viu que era uma criança”.

O oficial alemão a colocou em uma mochila, sem que ninguém a visse, e foi deixá-la entre um grupo de judeus da resistência. “Os resistentes sabiam que essa criança só podia ser filha da minha mãe, que era uma resistente que foi pega grávida. E eu acabei sendo entregue a uma senhora que era responsável pelo Serviço Social da Infância, uma mulher que acabou salvando mais de 5 mil crianças judias”, contou.

Hannah foi levada a um orfanato e, quando completou 9 anos de idade, acabou sendo adotada por um casal que imigrou para o Brasil, onde vive até os dias de hoje.

A história de Hannah ilustra o que foi o Holocausto, o assassinato em massa dos judeus que viviam na Europa. O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos o define como “a perseguição sistemática e o assassinato de 6 milhões de judeus europeus pelo regime nazista alemão, seus aliados e colaboradores”.

O Holocausto teve início em janeiro de 1933, quando Adolf Hitler e o Partido Nazista assumem o poder na Alemanha, e terminou em maio de 1945, quando as potências aliadas derrotaram a Alemanha nazista no fim da Segunda Guerra Mundial.

“Inserido na Segunda Guerra Mundial, o Holocausto é a maior tragédia que a humanidade viveu no século 20”, explica Sergio Napchan, diretor executivo da Confederação Israelita do Brasil (Conib).

“O Holocausto em si é um recorte, esses números não são precisos, mas morreram 6 milhões de pessoas. Um terço dos judeus que moravam na Europa foram exterminados por serem judeus”, ressalta, em entrevista.

No próximo dia 27 é celebrado o Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto. E, para marcar a data, foi lançada ontem (22), no Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto de São Paulo, uma pesquisa que apontou que a maior parte dos brasileiros (59,3%) já ouviu falar do Holocausto, mas somente metade deles (53,2%) soube defini-lo corretamente.

De acordo com o estudo, o conhecimento sobre o Holocausto se mostra ainda mais frágil quando são analisados elementos específicos sobre o tema, como o reconhecimento de que Auschwitz-Birkenau foi um campo de concentração e de extermínio do povo judeu, o que foi feito por apenas 38% dos entrevistados.

Escolaridade

A pesquisa também demonstrou que a principal fonte de conhecimento sobre o tema é a escola (30,9%), seguida por filmes e livros (18,6%) e a internet e as redes sociais (12,5%).

Os museus, memoriais e instituições especializadas foram citados por apenas 1,7% das pessoas, o que indicou baixo acesso a espaços formais de memória.

Para Carlos Reiss, diretor do Museu do Holocausto de Curitiba, esses dados reforçam a importância da educação e da cultura para o conhecimento sobre esse episódio.

“O museu tem um papel fundamental na construção dessa memória. A gente acredita muito na responsabilidade social dos museus e em uma museologia social que presta serviço para a sociedade, que se envolve nas pautas públicas e que se coloca contra os discursos de ódio, a violência, o racismo, a homofobia e a violência contra a mulher”, defende.

Para Hana Nusbaum, a educação é elemento fundamental para combater o ódio e a violência que poderiam resultar em episódios como o Holocausto.

“Quando os alunos brasileiros compreendem o que foi o Holocausto, isso fortalece justamente a formação cidadã deles. O sobrevivente Gabriel Waldman, quando é chamado para falar sobre isso, fala que está na sala de aula ‘para vacinar os alunos contra o ódio’. E é justamente isso que a gente precisa promover no ensino do Holocausto nas escolas brasileiras”, ressalta.

Pesquisa

Intitulada de Conhecimento sobre o Holocausto no Brasil, a pesquisa foi desenvolvida pelo Grupo Ispo, a pedido da Conib, do Memorial do Holocausto de São Paulo, do Museu do Holocausto de Curitiba e da Stand WithUs Brasil.

Os dados começaram a ser coletados em abril do ano passado e se estenderam até outubro, ouvindo 7.762 pessoas de 11 regiões metropolitanas do país, com exceção da Região Norte.

Segundo os pesquisadores, o estudo ainda será expandido para outros locais do país, inclusive para cidades do Norte do país.

Diversos atos ocorrem nos próximos dias para marcar o Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto. No domingo (25), por exemplo, um ato será realizado na Congregação Israelita Paulista em memória às vítimas do Holocausto, na capital paulista, com início às 18 horas.

No dia seguinte, a Casa do Povo, também na capital paulista, deve receber a presença da ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, para um encontro com instituições da comunidade judaica e do bairro Bom Retiro. O evento terá início às 18h20.

Anselmo Brombal
Anselmo Brombalhttps://jornaldacidade.digital
Anselmo Brombal é jornalista do Jornal da Cidade
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