No país, a exploração ocorre sem um sistema estruturado de criação que garanta a reposição dos animais abatidos. Isso significa que o abate depende basicamente do rebanho já existente — que vem diminuindo ao longo dos anos. Segundo o médico-veterinário José Roberto Pinho de Andrade Lima, do Conselho Regional de Medicina Veterinária da Bahia, esse é um dos principais pontos de preocupação.
“Não existe sistema de produção de jumentos no país, portanto não há reposição dos animais abatidos. A redução populacional já é significativa e ocorre de forma acelerada com o abate de 60 mil jumentos por ano. O rebanho passou de 700 mil há algumas décadas e hoje é estimado em menos de 150 mil”, diz.
Além da retirada constante de animais, a própria biologia da espécie dificulta a recuperação. A gestação dura um ano, normalmente nasce apenas um filhote por vez e o intervalo entre partos pode chegar a dois anos, o que torna a reposição naturalmente lenta.
Mesmo sem dados totalmente atualizados, análises que cruzam informações do censo agropecuário com registros de abate indicam uma queda acelerada da população animal.
De acordo com o representante do CRMV-BA, o ritmo atual de exploração pode levar a um cenário crítico em pouco tempo. “A população está caindo rapidamente, tendendo à extinção em poucos anos ou meses”, alerta.
Além da redução populacional, há preocupação com a forma como o abate é realizado. A ausência de controle sanitário e de rastreabilidade dos animais levanta riscos tanto para a saúde animal quanto para a saúde pública.
Segundo José Roberto, muitos jumentos chegam aos frigoríficos sem histórico veterinário ou exames obrigatórios. “Não existe qualquer controle sanitário e rastreabilidade dos animais que chegam aos frigoríficos”, afirma.
Esse cenário facilita a disseminação de doenças entre animais e também pode expor trabalhadores a riscos. Um exemplo é o mormo, doença infecciosa grave e crônica que pode ser transmitida para humanos por meio do contato com secreções, causada pela bactéria Burkholderia mallei, que afeta principalmente equídeos (cavalos, mulas, burros).
O jumento nordestino é resultado de séculos de adaptação ao clima seco e às condições adversas do semiárido brasileiro. De acordo com a professora especialista em Conservação e Uso de Recursos Genéticos Animais, Connie McManus, da Universidade de Brasília, esses animais possuem ocapacidade incomum de sobreviver com poucos recursos.
“O jumento nordestino é extremamente eficiente na utilização de água e de vegetação de baixa qualidade. Essa adaptação permite que o animal desempenhe funções importantes em regiões onde outras espécies teriam dificuldade de sobreviver, ” explica Connie.
De acordo com a especialista, os jumentos possuem resistência térmica e metabólica muito grande, conseguindo viver onde outros animais não conseguem. Além disso, a pesquisadora destaca que o desaparecimento desses animais representa também uma perda genética relevante. “Quando perdemos populações locais adaptadas, perdemos um recurso genético importante para o futuro”, diz.
Os jumentos também exercem funções importantes no ambiente. Ao se alimentarem, ajudam na dispersão de sementes e no controle da vegetação, contribuindo para a dinâmica do bioma da Caatinga.
A circulação desses animais por grandes áreas também favorece a conectividade ecológica. Com a redução da população, essas interações tendem a diminuir, o que pode provocar mudanças na estrutura do ecossistema.
Sem jumento, não há mula
A queda no número de jumentos também tem impacto direto na economia rural. O animal é essencial para a produção da mula, utilizada em diversas atividades agropecuárias. Mesmo com a modernização do campo, esses animais continuam sendo fundamentais em regiões onde a mecanização é limitada, como áreas do Pantanal, da Caatinga e do Cerrado.
Eles são usados no manejo de rebanhos, no transporte e no acesso a áreas de difícil locomoção, muitas vezes com custo inferior ao de veículos motorizados.



