sexta-feira, 30 outubro, 2026
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Afastamentos por transtorno do jogo crescem 439% em dois anos

Dados divulgados na quarta-feira (28) pela Subsecretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho, do Ministério do Trabalho e Emprego, mostram um crescimento expressivo nos afastamentos relacionados ao transtorno do jogo. O número de trabalhadores que receberam benefício por incapacidade temporária do INSS passou de 67 em 2023 para 157 em 2024 e 361 em 2025, alta de 439% em dois anos, segundo informações da Previdência Social.
O avanço ocorre no mesmo período em que as apostas online ampliaram sua presença no Brasil. Os dados, porém, não permitem concluir que a expansão ou a regulamentação das bets tenha causado diretamente o aumento dos afastamentos. O próprio levantamento recomenda cautela na interpretação, já que os registros analisados correspondem a trabalhadores que tiveram acesso ao benefício previdenciário e passaram por avaliação para reconhecimento da incapacidade temporária.
O crescimento dos afastamentos também antecede uma mudança radical na política brasileira para o setor. Em setembro de 2026, o governo federal editou a Medida Provisória 1.394, que proibiu em todo o país a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos online. As plataformas autorizadas deixaram de operar em 6 de outubro. Os dados sobre afastamentos, porém, referem-se ao período anterior à proibição e ainda não permitem avaliar os efeitos da nova política sobre a ocorrência do transtorno do jogo.
Para receber o benefício por incapacidade temporária, o segurado precisa apresentar uma condição de saúde que o impeça de exercer seu trabalho durante determinado período. Nos casos relacionados ao transtorno do jogo, os afastamentos mostram que os prejuízos podem ultrapassar a esfera financeira e alcançar também o funcionamento cotidiano e profissional.
O transtorno do jogo é classificado internacionalmente entre os transtornos decorrentes de comportamentos aditivos. Entre suas características estão dificuldade persistente de controlar as apostas, prioridade crescente dada ao jogo em relação a outras atividades e manutenção do comportamento mesmo diante de consequências negativas. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 1,2% da população adulta mundial apresenta transtorno do jogo.
No levantamento brasileiro, os homens representam 71% dos beneficiários afastados. A maior concentração está entre pessoas de 30 a 49 anos: 44,1% têm entre 30 e 39 anos e 22,8% entre 40 e 49, somando 66,9% dos casos analisados.
A dimensão profissional é apenas uma parte dos possíveis prejuízos. A Organização Mundial da Saúde relaciona o jogo problemático a sofrimento psicológico, dificuldades financeiras, conflitos familiares, ruptura de relacionamentos e maior risco de problemas de saúde mental. O Ministério da Saúde brasileiro também aponta alterações de sono e humor, comprometimento do salário e das economias e abandono de atividades importantes entre os sinais de alerta.
Um dos comportamentos característicos do transtorno é a tentativa de recuperar perdas por meio de novas apostas. A pessoa pode aumentar progressivamente os valores apostados, esconder quanto tempo ou dinheiro destina ao jogo e encontrar dificuldade para interromper a atividade mesmo quando já reconhece os prejuízos.
O crescimento dos registros previdenciários ocorre em meio a uma ampliação da procura por assistência. O Ministério da Saúde informa que os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas cresceram 140% entre 2018 e 2025. Desde 2026, o SUS também oferece teleatendimento específico para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas, além do acolhimento pelas Unidades Básicas de Saúde e pelos Centros de Atenção Psicossocial.
A existência de um transtorno do jogo exige avaliação profissional. A intensidade ou a frequência das apostas, isoladamente, não definem um diagnóstico. Perda de controle, prioridade crescente dada ao jogo, prejuízos financeiros, sociais ou profissionais e persistência do comportamento apesar das consequências estão entre os aspectos considerados na avaliação clínica.
As evidências disponíveis também recomendam cautela na apresentação dos tratamentos. A Organização Mundial da Saúde aponta a terapia cognitivo-comportamental e a entrevista motivacional entre as intervenções psicológicas com melhor sustentação científica disponível para o transtorno do jogo. O acompanhamento deve considerar as características e necessidades de cada pessoa, inclusive a presença de outros problemas de saúde mental.
Para especialistas em saúde mental, a facilidade de acesso às apostas digitais acrescenta um desafio importante: o comportamento pode permanecer oculto por bastante tempo. A pessoa pode continuar trabalhando e mantendo parte da rotina enquanto acumula perdas, tenta recuperar dinheiro e enfrenta alterações emocionais, familiares e financeiras. Reconhecer precocemente os prejuízos permite buscar assistência antes que o comprometimento alcance outras áreas da vida.

Anselmo Brombal
Anselmo Brombalhttps://jornaldacidade.digital
Anselmo Brombal é jornalista do Jornal da Cidade
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