segunda-feira, 17 junho, 2024
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Um estranho país

Anselmo Brombal – Jornalista


Era um país diferente. Chamavam-no de república. Seu presidente era o senhor Lúcifer Inácio da Silva, um idoso asqueroso, analfabeto e dipsomaníaco. Sua mulher, a chamada primeira-dama, não tinha classe, vestia-se da pior maneira possível, e tal qual o marido, mentia o tempo todo.
Seu povo era relativamente feliz. Comprava picanha para o churrasco todos os fins de semana a preços de banana. Churrasco e cerveja nunca faltavam. E sempre havia um pagode tocado no último volume. Em alguns lugares, funk da cantora Vaquitta. Não importava o quanto os bancos roubavam – o importante era a alegria. Não importava se os ônibus estavam cheirando mal, sujos, esculhambados e cobrassem tarifas absurdas.
Havia uma época que esse país parava. Era Carnaval. Miseráveis favelados se fantasiavam de reis e príncipes para exibição pública, ao som do batuque. Mulheres seminuas enchiam os olhos dos babacas que iam aos desfiles. E a séria imprensa desse país louvava as virtudes carnavalescas. O presidente Lúcifer a tudo assistia. E ria. Ria mais que seu povo.
Nesse país havia um congresso. Sim, com “c” minúsculo. Habitado por criminosos de toda espécie. Ladrões, corruptos, escroques. Todos mau caráter. Eleitos não se sabe se pelo povo, ignorante ao extremo. Povo que quando podia ia à escola – quando criança – por causa da merenda. Ou para ganhar um tênis novo. E o povo ria. Lúcifer ria. Ria e mentia descaradamente.
O tráfico de drogas existia. No atacado e no varejo. Os chefões do tráfico eram endeusados pela imprensa. A mesma imprensa que endeusava pessoas consideradas famosas. Que publicava fotos dessas famosas de biquini. Ou então sem roupa mesmo. Uma imprensa de profundidade, diríamos.
Era um país de carros novos. Novos e caros. Modelos já condenados em outros países, mas que ali era permitida sua venda. E venda se fazia de todas as maneiras. Principalmente por empresas de telemarketing, dedicadas a infernizar a vida de todos os cidadãos, a qualquer dia e qualquer hora, sem serem punidas. Lúcifer ria de tudo isso.
O grupo político de Lúcifer era o Partido das Trevas. Conhecido por roubalheiras e falcatruas. E nesse país havia uma espécie de cardeal Richellieu que fazia tudo conforme sua vontade. Para ele, a Constituição não passava de um palimpsesto, que podia ser apagado e reescrito à conveniência do momento. E o povo, ignorante, ria.
Mas o país era estranho demais. Elegeu um homem (biologicamente explicado) como sua melhor cantora. E outro homem, como a mulher mais bonita. Fazia do futebol uma paixão, não importando o preço dos ingressos nos estádios. Nem das camisas de clubes. Ou de bandeiras. Mas isso não era problema. O povo comprava cigarros contrabandeados e camisas e tênis falsificados a precinhos camaradas. Sem que ninguém se importasse. Comprava e ria.
E a vida seguia.

Anselmo Brombal
Anselmo Brombalhttps://jornaldacidade.digital
Anselmo Brombal é jornalista do Jornal da Cidade
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