domingo, 21 abril, 2024
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Kazu Miura vira jogador mais velho do mundo em atividade

O atacante japonês de 56 anos é o jogador mais velho a atuar em competições profissionais, atualmente no Oliveirense, da segunda divisão de Portugal

O relógio marca 44 minutos do segundo tempo quando o quarto árbitro indica uma substituição. Na vaga de Jonata, o camisa 97 do Oliveirense, da segunda divisão de Portugal, entra o 11, o veterano Kazu Miura, jogador mais velho a atuar em competições profissionais, agora com 56 anos.
Hoje realizado profissionalmente e idolatrado em seu país, o atacante japonês sempre foi fã do futebol brasileiro, onde iniciou sua carreira, ainda jovem, pelo Juventus da Mooca. A vinda para o Brasil tinha o propósito de “aprendizado” para levar novidades para casa, realizando um sonho do pai. Kazu vem do nome abreviado no Brasil de Kazuyoshi.
Aquele jogador franzino de muita timidez passou aperto por aqui pelo idioma, sofreu trotes aos montes dos companheiros que sempre o induziam a falar palavrões como sendo palavras bonitas, morou de favor e “ganhou” todos pela habilidade fora do comum nas quadras. Apesar de seguir nos gramados, ele começou a mostrar seu talento no futsal.
Nabuo Naya, empresário e apaixonado pelo futebol brasileiro, foi um visionário que imaginava transformar os filhos em grandes atletas ao buscar a essência do Brasil. Em um processo de intercâmbio, ele trouxe Kazu para o Juventus com somente 15 anos. Ainda tentaria a sorte com Yasutoshi no Santos, onde o caçula se destacou, mas não teve o mesmo desempenho.
Mesmo com uma situação financeira estável, Nabuo não tinha como acompanhar Kazu por muito tempo no Brasil por causa dos negócios no seu país. Investiu em uma tradutora e o entregou aos cuidados de Oswaldo Lemos, o Feio, que treinava o time infantojuvenil de futsal do Juventus. Apesar de ter vindo aprender a jogar nos gramados, o jovem não tinha o que fazer nas horas vagas e dedicava o tempo livre à bola. Passava o dia no campo e à noite ia acompanhar o time de quadra do time da Mooca, onde deu os primeiros passos e conquistou uma medalha de ouro, em final vencida contra o São Paulo.
“Não atrapalhava fazer duas modalidades ao mesmo tempo. E isso se comprova agora, 40 anos depois, com ele ainda jogando”, recorda o primeiro treinador. “Ele tinha um talento nato. Era muito habilidoso, já da natureza dele. Mesmo jovem e sem ter um forte treinamento no Japão, que ainda não investia no futebol, ele era um fora de série”, elogia Feio, atualmente supervisor de esportes do Juventus, onde cuida de todas as modalidades.
O agora dirigente foi uma das primeiras vítimas de Kazu. Não por seus dribles, mas por causa das “brincadeiras” dos primeiros companheiros do garoto japonês. A molecada ensinava palavrões para ele como se fosse maneira carinhosa de cumprimentar as pessoas. “Ele era um pouco tímido e você sabe como é o brasileiro… Kazu não tinha o domínio da língua e faziam brincadeiras com ele, ensinando-o a falar palavrão. Muitas vezes ele me xingava e não sabia”, se diverte Feio, que recebia “bom dia” ou “boa tarde” com um “Vai tomar no…”, ou algo do gênero. “Mas na hora que ele entrava na quadra, acabava qualquer timidez e virava uma fera, com muitos dribles.”
Nos primeiros meses de Brasil, Kazu morou em um sobrado no bairro da Mooca, reduto de italianos, no qual muitos jovens do Juventus ficavam alojados. Eram em torno de 30. Ele fez amizades que duram até os dias atuais com Raudnei, Paulinho e Mourão. O japonês foi amparado pelos pais de Paulinho, seu companheiro do treino no time de campo, morando na casa do amigo por algum tempo, quando ficou doente e precisou deixar o alojamento. Com a chegada de outros japoneses ao clube, mais quatro ou cinco de acordo com Feio, o atacante acabou rapidamente se entrosando e se soltando.
Centroavante dos bons, Raudnei era um ano mais velho que Kazu e, além de se transformar em um dos amigos próximos, vivia ensinando posicionamento e táticas aqui do Brasil. “O futebol japonês era amador naquela época e sempre dava dicas ao Kazu”, lembra o camisa 9. “O pai dele filmava todos os treinos aqui e vendia para o Japão, para ensiná-los a jogar”, revela.
Seu Nabuo passava alguns dias no Brasil hospedado em hotéis na Liberdade, bairro com reduto japonês em São Paulo no qual fazia questão de almoçar com o filho e seus amigos todos os domingos de folga. Para ganhar dinheiro, ele trazia alguns produtos esportivos do Japão, como tênis e camisetas para vender, mas presenteava Raudnei e outros meninos como maneira de retribuir o carinho e a atenção que davam a seu herdeiro.
Além de palavrões, Raudnei lembrou que os meninos do Juventus também enganavam Kazu na hora da comida. Ensinaram, por exemplo, que o feijão se chamava bife. As brincadeiras serviram para deixar o japonês mais entrosado e rapidamente ele se tornou “conversador e amigo de todo mundo”, como conta o centroavante. “Acabou se sentindo confortável, em casa.”
Após 40 anos, os parceiros dos tempos de Juventus não se esquecem do amigo do Japão. “Todos gostavam muito dele e até hoje conversamos. Eu fui jogar no Japão e chegamos a nos enfrentar por lá. Mando mensagens, ele responde, e dia desses até estávamos em enorme bate-papo com o Mourão também, que agora vive em Portugal. Nos tornamos eternos amigos.”
Um ano depois da passagem pelo Juventus, Kazu foi defender as cores do time de base do XV de Jaú, que também tinha um trabalho forte de intercâmbio com japoneses. Participou até de excursão do time do interior ao Japão, em partidas nas quais queria ensinar o que vinha aprendendo a seus compatriotas. Ele jogou pelo profissional, participando de vitória por 3 a 2 sobre o Palmeiras antes de jogar a Copa São Paulo de Futebol Júnior.
Já maior de idade, chegou ao Santos pela primeira vez em 1986, mas acabou não tendo espaço e passou a perambular por outros clubes do Brasil. Emprestado ao Palmeiras, representou o time alviverde em novas excursões ao Japão. Também passou por outras casas, como Matsubara e CRB, até chegar ao Coritiba, em 1989, onde foi destaque sob o comando de Evaristo de Macedo e chegou a concorrer a prêmio de melhor jogador do Brasileirão. Ainda ganhou o Paranaense, o que o levou de volta ao Santos.
“Foi indicação minha a contratação do Kazu em 1990 porque eu já conhecia bem suas características de ponteiro rápido e que usava a velocidade em ambos os lados do campo e chutava bem com os dois pés”, afirma com satisfação o técnico Pepe. “Houve muita reclamação pela contratação de um nipônico, mas, apesar da descrença, apostei nele e foi uma das sensações daquele campeonato (Paulista), fazendo um golaço contra o Palmeiras”, diz, lembrando do primeiro gol do jogador no clube, em vitória no clássico que o fez ser apelidado de “Exterminador Verde”, pois já havia anotado contra o rival também pelo XV de Jaú.
“Era um jogador inteligente, conseguia falar alguma coisa em português e logo se entrosou no grupo. E se tornou um coqueluche da torcida”, lembra Pepe, garantindo que Kazu ganhou as arquibancadas rapidamente. “Tinha bom ambiente com os demais companheiros, brincava na hora de recreação, mas jogava com seriedade incrível. Foi uma contratação bem estudada e que deu certo.”
Naquela época, Kazu confessou ao treinador santista que jogaria até quanto seu corpo aguentasse. Quando completou 50 anos, Kazu revelou ter pique para ir até os 60. Está com 56. Mostra ainda conseguir render em bom nível em Portugal. De acordo com Pepe, o japonês sempre trabalhou a mais para cumprir suas metas.
“Ensinei apenas o essencial a ele, coisas do Brasil, como funcionava viagens, treinamentos. O Santos jogava muito e ele ficou feliz com o que aprendeu. Era dedicado, boa pessoa, nos treinos, se fossem 20 minutos, ele treinava 35, 40, sempre querendo melhorar a parte física para aprimorar a parte técnica, que era excelente”, enfatiza, sem esconder sua emoção em vê-lo ainda atuando. “Muito boa sorte para ele, que já é um senhor. Fico emocionado que aos 56 anos Kazu ainda continua entortando laterais e fazendo gols. Boa sorte, Kazu, você merece”, manda mensagem Pepe, que recentemente recebeu uma mensagem de agradecimento do jogador por tudo o que aprendeu com o treinador amigo de Pelé.
Depois de passar pelo Santos, Kazu foi brilhar em seu país, onde ficou nove temporadas no Tokyo Verdy, época em que enfrentou o amigo Raudnei, então no Kyoto. Também se destacou com a camisa da seleção. A primeira aventura europeia foi com o Genoa, da Itália, por empréstimo, até iniciar seu tour por diversas casas que culminou com a chegada ao Oliveirense, aos 56 anos.
Apaixonado pelo Brasil, Kazu tem fotos destacadas com Neymar e Pelé em suas redes sociais, na qual lamentou a morte do Rei do Futebol no ano passado. Ele atuou ao lado de grandes nomes, como o palmeirense César Sampaio e o santista Serginho Chulapa. E faz questão de mostrar seu jogo limpo na carreira, ao destacar que jamais recebeu um cartão vermelho. Em décadas nos mais diversos gramados do planeta, foram 29 amarelos e 37.621 minutos em campo.
Parece bastante, mas daria pouco mais de 418 jogos completos. Acontece que muitas vezes ele iniciou como reserva, entrando apenas nas partes finais, como na estreia pelo Oliveirense. São 163 gols do habilidoso ponta, que adorava entortar os marcadores e iniciar uma jogada de bola na rede, ou servir um companheiro, com outras 52 assistências.

Anselmo Brombal
Anselmo Brombalhttps://jornaldacidade.digital
Anselmo Brombal é jornalista do Jornal da Cidade
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