sexta-feira, 14 junho, 2024
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Um país que admira ladrões

Anselmo Brombal – Jornalista

Não é novidade o fato dos brasileiros terem verdadeira admiração por ladrões. Embora criminosos, são vistos como heróis, exaltados pela imprensa e lembrados por nome, apelido, feitos e curiosidades. Alguns chegaram a fazer parte do nosso folclore. Temporariamente, mas fizeram.
No começo do século passado tivemos um ladrão e tanto. O italiano Gino Amleto Meneghetti chegou a ser considerado o rei dos ladrões. Sua história como ladrão começou na Itália, quando, ainda menino, roubava galinhas e frutas em sua cidade. Foi preso várias vezes. E fugiu várias vezes. Tinha facilidade de escalar paredes, e entrava nas casas pelo telhado.
Veio para o Brasil, teve um ou outro emprego, mas voltou a roubar. E fez carreira como ladrão. Nunca andou armado e dava baile na polícia com suas fugas. No fim da vida, com 80 anos, ganhou uma banca de jornal na Capital. Presente do governador do estado na época.
Nos anos 1960, apareceu o Bandido da Luz Vermelha. João Acácio Pereira, que se inspirou em Caril Chessman para usar uma lanterna vermelha. Invadia mansões, roubava e estuprava. Acabou preso. Mas os jornais o exaltavam. Pouco depois apareceu Lili Carabina no Rio de Janeiro. Gostava de roubar bancos. Houve ainda Lúcio Flávio Villar Lírio. Esse era da pesada. Houve ainda, no Rio de Janeiro, Luiz Carlos dos Reis Encina, o Escadinha. Fugiu da cadeia em helicóptero. Isso sem falarmos no Lampião, o capitão Virgulino Ferreira da Silva. Talvez o maior bandido que o Brasil já teve. Talvez.
E onde está a admiração? O Bandido da Luz Vermelha se tornou filme, com título homônimo. Lili Carabina também virou filme, estrelado por Betty Faria. Lúcio Flávio também é filme (O passageiro da agonia). O roubo ao Banco Central (mais de 150 milhões de reais) é filme sem protagonistas. A quadrilha era muito grande. Outro bandido, o Cara de Cavalo, foi romantizado após sua execução. Meneghetti ficou só nos recortes de jornais, sem filme. Alguns livros com sua biografia. Contando, inclusive, que na última vez que foi preso tinha 92 anos. Preso roubando, bem entendido.
Os grandes ladrões de hoje em dia não usam mais armas. Nem usam lanternas ou armas. Usam paletó e gravata. Muitos são chamados de excelência. Venerados pela imprensa tosca e vendida. São os heróis do momento. Admirados por seus feitos de fachada. Estão nos jornais, na internet, na tevê. E muitos são votados por seus fiéis seguidores e admiradores.
É uma admiração mórbida. Mas que esvazia nossos bolsos. Que nos tira a vontade de viver aqui. Que nos desilude a cada dia que passa. Um dia, quem sabe, mudaremos essa cultura, esse ímã por tudo o que é errado. Por tudo que não presta.
Mas até lá, continuaremos sendo roubados. Muitos gostando.

Anselmo Brombal
Anselmo Brombalhttps://jornaldacidade.digital
Anselmo Brombal é jornalista do Jornal da Cidade
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