domingo, 26 maio, 2024
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Santa Inguinorância, rogai por nós!

Anselmo Brombal – Jornalista O ignorante é um ser feliz. Alheio a tudo em sua volta, no seu mundo, na sua falta de lucidez e conhecimento. Nada o preocupa, uma vez que os problemas parecem estar distantes demais. Um inatingível. O ignorante não é necessariamente alguém que não estudou. É alguém que tem a mente obtusa, que não aceita controvérsia, que não admite raciocínio. Digere somente o que lhe é dado. Ou imposto. O ignorante é mais ou menos assim: a gasolina aumentou. Foda-se, eu não tenho carro. E esquece que com isso aumentam também a passagem do ônibus, o frete dos caminhões, e consequentemente o preço dos alimentos no supermercado. O ignorante não pensa. Reage conforme foi adestrado. Políticos são todos ladrões. Foda-se, eu não votei. E se votou, esquece que foi ele, o ignorante, que colocou esse político numa câmara de vereadores, numa assembleia legislativa, no Senado, na Câmara dos Deputados e até na Presidência. Para ele, ninguém presta. Mas se o candidato ladrão, safado, sem vergonha, corno, filho da puta, lazarento, morfético, aparecer no boteco, é o primeiro a tirar fotografia com tal candidato. No celular, para depois mostrar aos amigos que é amigo de “gente importante”. O motorista do ônibus que serve o bairro não respeita velocidade, lombadas ou buracos. Foda-se, não sou dono da empresa de ônibus. Mas não pensa que, andando assim, logo esse ônibus vai quebrar, e o conserto será incluído no custo da passagem. No próximo aumento. Passagem que ele irá pagar. Meu cachorro late a noite inteira, e daí? É obrigação dele guardar minha casa. Pura ignorância e falta de respeito. Cachorro que late a noite toda ou está assustado ou com fome. Mas é o vigilante da casa, pensa ele. Se tiver carro, estaciona em qualquer lugar. Fodam-se os outros, o importante é minha comodidade. Vagas de deficientes ou idosos para que? O que esses aleijados e velhos têm pra fazer fora de casa? Esquece que hoje é um jovem, mas amanhã, com sorte, será um idoso. E que toda sua falta de respeito e educação reflete nos filhos, que enxergam o pai como exemplo a ser seguido. Compra camisa de seu time de futebol e costuma cumprimentar os amigos, tão ignorantes quanto ele, com um “é nóis!”, enquanto em casa falta o leite, o macarrão, o café, a fralda para o pequeno Kléberson Washington, e o sabonete para lavar a bunda. Foda-se! Por que não colocam o sabonete e a fralda na cesta básica da firma? A cesta que, de uma forma ou outra, é ele mesmo que paga. Contenta-se com o 13º salário, que considera um senhor benefício. E esquece que no ano todo só recebe 11 salários. Não sabe fazer a conta: 12 mexes x 4 semanas = 48 meses. Mas o ano tem 52 semanas. Então ficam faltando quatro semanas. Justamente o “benefício” do 13º. E vai feliz para casa, levando o panetone barato que a firma deu de presente. O ignorante acredita em liquidação e não raciocina: se uma loja pode vender mais barato, por que vendia tão caro? Adora um carnê, mesmo sabendo que não terá como pagar. Mas se o vizinho tem uma televisão de 50 polegadas, por que não posso ter? Não vê hora de vender sua Brasília para comprar um “Uninho” em trocentas prestações. Não vê que está pulando da frigideira e caindo no fogo. Mas ele é feliz. Nos fins de ano, passa uma semana com mulher e a penca de filhos na praia. Tomando cerveja barata, comendo camarão estragado e se tostando no sol do meio-dia. Material e uniforme escolares no começo do ano é problema da prefeitura, não dele. Mas não consegue entender que é ele mesmo que paga por tudo isso. E sua passagem pela praia certamente estará exposta no Facebook, com comentários do tipo “lindos”. Talvez a ignorância seja uma bênção. E se for santa, que ore por todos nós.

Anselmo Brombal
Anselmo Brombalhttps://jornaldacidade.digital
Anselmo Brombal é jornalista do Jornal da Cidade
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