terça-feira, 16 abril, 2024
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Nós e nosso hilário futuro

Anselmo Brombal – Jornalista Nos dias de hoje, vemos recordações e até rimos delas. Vemos também, nas redes sociais, fotos antigas. E também rimos. Nos perguntamos: como alguém podia usar esse tipo de roupa? Como conseguiam dirigir um carro tão feio? Como essa mulherada conseguia sair de casa com esse penteado? Tudo é motivo de riso. Mas, e no futuro, quando alguém olhar o que fazemos hoje, o que dirá? No futuro nós é que seremos o passado. Nós seremos as recordações. Imaginemos. Lá pelo ano 2900 (se o mundo não acabar antes), alguém olhando as redes sociais de hoje. Será de dar nó no cérebro. Há algumas décadas, era mania fazer um diário, compartilhado com pouquíssimos amigos. Mais as amigas. Coisa bem reservada. Hoje vai para a rede social, e quem posta fica bravo (a) se ninguém lê. Em 2900, esse alguém concluirá que os carros de nossa época atual são todos iguais. Tem o Gol da VW, o Gol da Fiat, o Gol da Peugeot, o Gol da Citroen, o Gol da Renault… Cópias quase idênticas. Verá também que em nossa época pessoas como Ludmilla e Anitta são vistas como cantoras. Em tempos passados (nossos), cantores e cantoras tinham voz, e suas músicas tinham sentido. E esse alguém perguntará: como esse povo, que se diz evoluído, trocou tanta coisa boa por isso? Esse alguém também não entenderá como um médico, que salva vidas, ganha infinitamente menos que um jogador de futebol, saído de alguma favela, semianalfabeto e bronco ao extremo. Não entenderá também como mulheres, outrora (para nós) tão elegantes, hoje se vestem com calças rasgadas e se enchem de tatuagens, como o gado marcado no pasto. Em 2900, verão também nossas opções. Quase todas erradas. Estamos trocando o carro de motor de combustão interna, a álcool ou gasolina, por carros elétricos, em nome da economia e do meio ambiente. Não entenderão como poluimos tanto e gastamos tanto para produzir a energia elétrica. Verão que, embora tenhamos terra sobrando para várias gerações, construímos minúsculos apartamentos e nele nos enfiamos em nome da segurança. Moramos em gaiolas compartilhadas. Muitos de nós se tornaram vegetarianos. Não comem carne, mas buscam proteínas nos complementos alimentares, vendidos a peso de ouro principalmente nas academias. E como entender isso? Como entender que alguém usa o carro para percorrer alguns quilômetros para caminhar numa esteira de academia? Em 2900, prevê-se, não haverá mais papel. Todo o mundo será digital – se não inventarem coisa pior até lá. E com essa onda digital, os futuros não entenderão como poderia, em nossa época, existir o Tik-Tok. Se houver call center, provavelmente até o porteiro será digital – hoje é só o atendimento marca barbante. Empresas consideradas avançadas tecnologicamente já têm suas assistentes virtuais. Que não servem pra nada. No futuro também não entenderão como nossa vida foi até agora uma sucessão de progressos e regressos. Há 40 ou 50 anos, todo mundo queria estudar, ser doutor. Hoje, as profissões mais bem pagas não exigem doutorado. Basta ver quanto um pedreiro, um marceneiro, um mecânico ou um pintor cobra pelos seus serviços. Essa gente anda de roupa suja por causa do trabalho. Mas ganha muito mais que “doutores”. Ninguém no futuro irá entender que hoje a mulher é exposta nua, em sites, como a carne no açougue. Nem irá entender que há gente que acredita em milagres de pastores dizimistas – eles ricos demais, seus fiéis paupérrimos. Em 2900, os livros (e-books) de História omitirão muita coisa. Fatos serão apagados por conta de ideologias e sistemas. Talvez continue a tradição oral, a história passada de pai para filho. E assim não vão entender mais nada. Vão pirar. Como um país que teve a inteligência e a honradez de Ruy Barbosa, a inteligência e o dinamismo de Dom Pedro II trocou por tudo isso que está aí? Sem mais comentários.

Anselmo Brombal
Anselmo Brombalhttps://jornaldacidade.digital
Anselmo Brombal é jornalista do Jornal da Cidade
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