Anselmo Brombal – Jornalista
Não é possível precisar quando perdemos a mão. O mundo mudou muito – e para pior. Não sabemos quando nossos estudantes passaram a desrespeitar professores, nem quando usar drogas se tornou normal. Nem quando a vida passou a valer tão pouco. Ou quase nada. E nessas mudanças, apareceu outro mundo, o digital.
Um mundo praguento, diga-se de passagem. Temos a Inteligência Artificial para suprir a deficiência da burrice humana. Tudo depende de computadores. E os mais velhos, não acostumados a isso, como ficam?
Vejamos. Bancos não resolvem mais nada no balcão. Tudo é por malditos aplicativos. Nós nos tornamos bancários. Somos obrigados a decorar senhas e a entender a contabilidade bancária. Órgãos públicos também aderiram a essa praga de aplicativos. Coisa complicada para gerações como a nossa, a de velhinhos. Em alguns, como o Poupatempo e a Sabesp, exigem que marquemos dia e horário para atendimento. No caso da Sabesp, por aplicativo.
Não me contaram, eu presenciei. Num balcão de determinada empresa que fornece água e retira o esgoto, uma atendente, que deveria atender, orientava uma cliente a resolver tudo por aplicativo. Ela só queria uma segunda via da conta. Coisa simples: bastava essa atendente ir ao seu computador, acessar a fatura e imprimir a tal segunda via. Mas estamos na era digital. Quer resolver seu problema? Use o aplicativo.
Qualquer restaurante mequetréfe não oferece mais o tradicional cardápio. Para escolher o prato, o cliente que se vire para escanear o QR Code. E supermercados usam essa digitalização para roubar clientes. Nem todos. Coisa mais comum é o preço na etiqueta, na gôndola, ser um, e na hora de passar no caixa ser outro, maior. Quando o cliente percebe e reclama, vem a justificativa – falha do sistema.
Onde isso vai chegar ninguém sabe. Mas uma coisa é certa: nós, velhinhos, gostamos mesmo é de papel.



